Alexsandro Fávaro Rocha Coutinho

Alexsandro Fávaro Rocha Coutinho
Alexsandro Fávaro Rocha Coutinho nasceu em 14 de novembro de 1979, em Niterói, e faleceu aos 43 anos. Lygia, sua esposa, o conheceu na adolescência - ela tinha 16 anos e ele era dois anos mais velho. Namoraram desde muito jovens, cresceram juntos e mantiveram uma relação sólida por 25 anos, marcada por amizade, cumplicidade e planos compartilhados.
Casaram-se em 2009, após 11 anos de namoro, logo depois de Alex ser aprovado no concurso da Polícia Militar. Planejavam cada detalhe da vida, inclusive a chegada dos filhos, prevista para alguns anos depois, mas o destino interrompeu seus planos em 2011.
Alex era ativo, gostava de correr, viajar e cuidar da casa. Seu filme preferido era "O Gladiador" e a esposa relembra, com carinho, a música tema do filme, como uma boa lembrança de seu marido. Alex era metódico, dedicado e tinha um senso de honra incomum. Seu lema, repetido com convicção, era: "Para homens que vivem de honra, a desonra é pior que a morte".
Quando acordou no CTI, após o acidente, a primeira coisa que fez foi cantar o hino da Polícia Militar, demonstrando sua devoção à corporação. Desde criança sonhava em ser policial, inspirado pelo tio que também servia à PM. O sonho se concretizou, e Alex tornou-se um profissional exemplar, respeitado pelos colegas e pela comunidade onde atuava.
O crime
Alex costumava atuar junto à UPP Babilônia/Chapéu Mangueira, sendo conhecido pelos moradores como 'Sr. Boquinha', por ter lábio leporino - apelido que levava com bom humor. Era rigoroso, mas justo, e muito respeitado pela comunidade.
Em razão do ótimo trabalho realizado, Alex foi recrutado para trabalhar na UPP Fallet-Fogueteiro, local que vitimou, dias antes, o policial militar Alexsander de Oliveira Silva, atingido por uma granada. O trabalho visava ao levantamento de estatísticas e o restabelecimento da ordem, já que aquela UPP era alvo de denúncias de corrupção e envolvimento de policiais com o tráfico de drogas.
Foi assim que, no dia 10 de setembro de 20211, durante uma das diligências realizadas, Alex e seu companheiro de PATAMO foram surpreendidos por uma emboscada, com inúmeros traficantes fortemente armados, que passaram a atirar contra os agentes. Em razão das exigências da época, Alex portava apenas uma pistola e uma arma não letal, ao passo que seu colega era o único com um fuzil.
Durante os ataques sofridos, Alex tentou reagir, abrigando-se com o colega de farda em uma área protegida. Contudo, acabou sendo atingido por dois tiros - um de raspão no colete e outro no pescoço, caindo em uma vala, consciente, mas sem conseguir se mover. Após algum tempo, Alex conseguiu ser resgatado por outros companheiros de farda, sendo levado ao Hospital da Polícia.
Sua esposa, Lygia, técnica de enfermagem, narra que foi a proximidade com o hospital que permitiu o socorro imediato do marido. Ao chegar ao hospital, o encontrou no centro cirúrgico e recebeu a notícia de que a lesão atingira sua coluna cervical, deixando-o tetraplégico para o resto da vida.
As consequências do crime - o que fica
Alex tornou-se uma das muitas vítimas da guerra urbana travada entre o Estado e o crime organizado. Permaneceu internado por seis meses, sendo um mês e meio no CTI. Lygia não saiu de seu lado e abandonou o emprego, visando cuidar do marido em tempo integral.
Ela narra que os primeiros anos foram marcados por sofrimento e dedicação intensa à reabilitação, com fisioterapia diária e acompanhamento psicológico. Aos poucos, Alex recuperou parte dos movimentos dos braços e passou a usar uma cadeira motorizada, que conduzia com o queixo.
Mesmo com as limitações, Alex encontrou novo propósito: ajudar outros policiais vitimados. Participou de documentários, como 'Entre Lobos' e 'Heróis do Rio de Janeiro', e foi peça-chave na elaboração da cartilha de apoio aos policiais feridos em serviço. Seu trabalho inspirou o primeiro Simpósio Nacional sobre Vitimização Policial, onde foi homenageado.
Apesar da força e da esperança, as complicações médicas se agravaram com o tempo. Cadeirante, sofria de infecções urinárias recorrentes. Em 2023, uma delas evoluiu para sepse, ensejando seu falecimento. Lygia, que abdicou da própria vida profissional para cuidar dele, segue hoje o legado do marido como diretora da Associação Beneficente Heróis do Rio de Janeiro, da qual Alex foi vice-presidente. Ela costuma dizer que Deus a preparou para cuidar dele - e cuidou até o fim, com amor, lealdade e a mesma honra que ele sempre defendeu
