Wallace Pinto Fernandes

Wallace Pinto Fernandes
Wallace Pinto Fernandes nasceu em 18 de outubro de 1987, em São João de Meriti. Filho de Célio e Teresinha, é casado com Natália e pai de João Pedro, hoje com 10 anos de idade. Desde muito cedo, Wallace afirmava que queria ser policial. A escolha não surgiu por acaso: um tio que integrava a corporação lhe contava histórias de operações, falava da rotina e da forma de atuação, despertando nele, ainda menino, o desejo de vestir a farda.
Ao completar 18 anos, Wallace se deparou com uma mudança inesperada: a idade mínima para ingresso na Polícia Militar havia sido alterada para 21 anos. Diante disso, optou por não abandonar o sonho. Prestou concurso para a Marinha, onde permaneceu por três anos como fuzileiro naval. Em 2010, realizou o concurso para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, ingressando na corporação em 2012.
Desde então, sua trajetória foi marcada por intensa exposição ao risco. Wallace acumula 14 anos de polícia e já passou por 17 unidades diferentes, entre batalhões e UPPs. Ingressou no BOPE em 2014, permanecendo por cerca de um ano. Durante o curso, sofreu um acidente que resultou na fratura de duas costelas, o que inviabilizou sua permanência. Em seguida, integrou o COE - Comando de Operações Especiais, até 2015, quando foi transferido para a UPP da Rocinha.
Atualmente, Wallace atua no GATE - Grupo de Ações Táticas, função que o expõe diariamente a situações de alto risco. Ele relata que precisa andar armado mesmo fora do serviço, por receio de ser reconhecido por criminosos. A arma, para ele, não é um símbolo, mas uma necessidade de sobrevivência.
Fora da farda, Wallace se define pela família. O que mais gosta de fazer é estar com a esposa e o filho, ir à praia, soltar pipa e assistir aos jogos do Botafogo. São nesses momentos que tenta encontrar alguma normalidade em uma rotina marcada pela vigilância constante.
O crime
A história de Wallace na polícia é atravessada por sucessivos episódios de violência armada. Desde que ingressou na corporação, ele já sofreu três atentados com disparos de arma de fogo, além de outras situações de confronto direto.
Em 2015, quando se deslocava de carro para o trabalho, foi vítima de uma tentativa de assalto. Diante da ameaça, reagiu e efetuou disparos contra os assaltantes, atingindo um deles. Os criminosos fugiram feridos. Nessa ocasião, Wallace não foi baleado, mas teve o rosto atingido por estilhaços de vidro do próprio veículo.
No ano seguinte, em 2016, sofreu nova tentativa de assalto quando seguia de moto para o serviço, armado, com a farda guardada na mochila, a caminho da UPP do Morro do São João, no Méier. Ao passar por Piabetá, dois homens em uma motocicleta anunciaram o assalto, apontando a arma em sua direção. Wallace reagiu imediatamente, jogando a moto contra os criminosos. Um deles efetuou dois disparos, sendo que um atingiu sua perna direita. O projétil permanece alojado em seu corpo até hoje. Os autores fugiram e nunca foram identificados. Wallace permaneceu cerca de três meses afastado, em tratamento, antes de retornar ao trabalho.
Em 4 de fevereiro de 2025, Wallace voltou a ser baleado durante uma operação em Jardim Catarina, em São Gonçalo. Na ocasião, havia uma ação policial vinculada à ADPF, com intensa troca de tiros em diversos pontos da comunidade. Sua equipe foi enviada para conter disparos direcionados à BR. Um tiro de fuzil calibre 7,62 atingiu uma barricada, ricocheteando e alcançando sua perna, arrancando parte da panturrilha. Apesar da gravidade, conseguiu se recuperar e retornou ao serviço, sem sequelas permanentes.
Em julho de 2025, sofreu novo atentado na comunidade do Anaia, também em São Gonçalo. A equipe recebeu informações de que traficantes, juntamente com o líder local conhecido como "Professor", planejavam um arrastão na RJ-104. As viaturas cercaram a comunidade, e Wallace ingressou pelos fundos. Ao desembarcar com outros dois colegas, passou a progredir sob intenso fogo. Durante a ação, tentou render um motociclista que portava um fuzil atravessado no peito, sem perceber que o garupa também estava armado. O garupa efetuou diversos disparos, um dos quais atingiu Wallace na cabeça, de raspão. Ele caiu, atordoado, mas ainda assim conseguiu reagir e efetuar disparos. Os dois ocupantes da motocicleta morreram no local. Wallace foi socorrido pela viatura.
As consequências do crime
As consequências da violência vivida por Wallace não se limitam às lesões físicas, que, embora graves em alguns episódios, não deixaram sequelas permanentes. O impacto mais profundo se manifesta na sua vida emocional, familiar e social.O custo do trabalho policial, para Wallace, é a perda da liberdade cotidiana. Há lugares que ele não frequenta, horários que evita e decisões simples que deixam de ser espontâneas. Ele evita sair à noite com a família e permanece em estado constante de alerta, mesmo durante as folgas. Relata que nunca consegue relaxar completamente, sempre com a sensação de que algo pode acontecer.
Essa vigilância permanente afeta diretamente seus familiares. Seu filho, que o admira e se orgulha da sua profissão, é também motivo de preocupação: Wallace afirma que não deseja, de forma alguma, que ele siga a carreira policial. Sua mãe convive com depressão e ansiedade, em grande parte relacionadas ao medo constante de receber uma ligação anunciando a morte do filho.
Wallace narra situações que revelam o grau de tensão com que vive. Em uma ocasião, enquanto estava na praça de alimentação com a família, percebeu um homem entrando de casaco em um dia de calor intenso. Reconheceu nele alguém que havia prendido anos antes e que também o identificou como policial. Imediatamente, Wallace sacou a arma e realizou a abordagem, mesmo estando fora de serviço. O episódio evidencia como o estado de alerta nunca se encerra. Apesar de tudo, Wallace afirma que permanece na polícia por vocação. Diz amar o que faz, mesmo após tantos ataques e riscos acumulados. Ao mesmo tempo, expressa a sensação de falta de amparo social. Relata que muitos policiais vivem hoje sob o medo permanente do julgamento, da exposição e da incompreensão da população sobre a realidade enfrentada diariamente. Sua história revela que, mesmo quando o corpo sobrevive, a violência deixa marcas invisíveis, que acompanham o policial dentro e fora do serviço.
Sua história chegou a ser registrada em um documentário produzido na Dinamarca, mas ainda é pouco conhecida no Rio de Janeiro. Trata-se de uma vida marcada por sucessivos episódios de violência extrema, em que a condição de vítima não se encerra em um único fato, mas se constrói ao longo do tempo, nas cicatrizes físicas, emocionais e familiares deixadas pela permanência diária no risco.
