Amanda de Souza Soares Souza

Amanda de Souza Soares Souza
Amanda, cujo nome de registro era Yago, nasceu em 16 de janeiro de 2001, na maternidade Azevedo Lima, em Niterói e faleceu aos 23 anos, em 1º de fevereiro de 2024. Filha de um pai militar e de uma mãe dedicada, Amanda cresceu em um lar afetuoso e, quando criança, adorava brincar de casinha, cantar e criar histórias.
Durante a adolescência, enfrentou um processo difícil de aceitação pessoal e familiar. Aos poucos, sua mãe percebeu que havia algo que a afligia: Amanda se isolava, trancava-se no quarto e passou a se automutilar, tentando lidar com uma dor que não sabia expressar. O medo da rejeição, sobretudo por parte do pai, pesava sobre ela. Foi apenas com o acompanhamento psicológico que Amanda conseguiu dizer à família quem realmente era.
A revelação de que não se identificava com o gênero que lhe fora atribuído ao nascer foi um divisor de águas. No início, a família teve dificuldade em compreender e aceitar, mas o amor prevaleceu. O nome escolhido - Amanda - passou a representar o renascimento de quem finalmente podia existir como era. Para os mais próximos, especialmente o pai e a avó, ela ainda aceitava ser chamada pelo nome anterior, mas, para o mundo, afirmava-se como Amanda, com coragem e dignidade.
A jovem amava cantar e chegou a montar um pequeno estúdio em casa, de onde gravava vídeos para o YouTube e Instagram, sob o nome ¿Mandy Gin Drag¿. Apaixonada por Carnaval, foi passista por dois anos nas escolas Acadêmicos do Cubango e Magnólia Brasil, ambas de Niterói, e vivia intensamente a preparação para os desfiles. A mãe relata que ela chegava a largar empregos e estágios para seguir sua vocação e, em 2024, sua escola chegou a mandar confeccionar uma sandália especial, feita sob medida em São Paulo para a filha, sendo ela entregue à genitora, como lembrança de uma filha que brilhava onde quer que estivesse.
Amanda cursava Análise Clínica, mas sonhava mesmo em viver da música. Compunha, se montava como drag queen, se maquiava com arte e acreditava que, um dia, suas canções seriam conhecidas. Seu talento e carisma encantavam todos ao redor. A música "Estrelinha", de Marília Mendonça, era uma das que mais a representavam. Aos 17 anos, celebrou o aniversário com um bolo decorado com maquiagem no topo. Disse à mãe que, naquele dia, estava realmente começando a viver. E viveu, intensamente, até o último instante.
O crime
Na noite de 1º de fevereiro de 2024, Amanda foi assassinada a facadas por uma pessoa com quem estava se relacionando. A vítima foi encontrada já sem vida em um terreno abandonado próximo de sua casa, em São Gonçalo.
Ao que tudo indica, o crime foi premeditado, visto que o acusado atraiu Amanda até o local, após enviar inúmeras mensagens para seu celular. O crime teve motivação transfóbica, visto que se deu porque o assassino temia que o relacionamento dos dois fosse revelado.
O caso foi levado a julgamento perante o Júri popular, sendo o réu condenado por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel, traição e feminicídio.
As consequências do crime - o que fica
A família de Amanda revela que a vida de todos mudou completamente após essa tragédia. Seus pais ainda convivem diariamente com a dor da ausência, especialmente por retratarem o quanto a presença e o espírito afetuoso e festivo da filha criaram um vazio imenso dentro de casa.
A genitora relata que um dos maiores sonhos de Amanda sempre foi realizar a mudança de seu registro civil, o que não foi possível diante do crime. Em razão disso, após o falecimento da filha, a Sra. Silvia procurou amparo legal e conseguiu realizar a retificação do registro, promovendo, inclusive, a retificação de sua certidão de óbito, a qual passou a trazer o nome Amanda.
A vítima já costumava frequentar o Centro de Cidadania LGBT Metropolitana e, desde o crime, a genitora narra que também passou a frequentar o equipamento, recebendo acolhimento e amparo, diante da dor vivenciada.
