eixo-3/VITA EVANGELISTA DE AZEVEDO

Vita Evangelista de Azevedo

Atualmente com 40 anos
Campos dos Goytacazes

Nasci em 21 de agosto de 1985, em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense - território onde a fluidez das águas inunda ruínas coloniais, mesmo quando ninguém vê. Cresci entendendo que criar era uma forma de atravessar essas camadas de tempo: um modo de escutar o que foi soterrado e devolver vida ao que tentaram silenciar.

Sou artista, pesquisador, ativista e pessoa transmasculina - o que significa que minha identidade de gênero existe como parte do guarda-chuva não binário e que não se limita, mas tende à expressão da masculinidade.

Desde a adolescência, vivi o descompasso entre o que eu era, como me viam e o que esperavam de mim. Quando as curvas do corpo chegaram, trouxeram também o olhar invasivo, o assédio, a vigilância - a educação para o medo, para o silêncio, para a docilidade. Como tantas pessoas designadas mulheres ao nascer, fui socializado no controle do corpo e no apagamento da voz. Essas marcas não desaparecem com a testosterona; ficam inscritas na memória, no corpo e na forma como aprendemos a existir.

Ainda assim, minha transição de gênero não é uma troca de corpo e nem um deslocamento de A para B. Não existe ponto de partida e nem de chegada, existe somente o trânsito. Transiciono como quem reinvindica a narrativa de si mesmo.

Aos 17 anos, deixei o interior para estudar Cinema no Rio de Janeiro. Mais tarde, me casei com uma pessoa estrangeira, que me levou para fora do país: em Estocolmo, trabalhei com audiovisual; em Amsterdã, aprofundei a escrita e a prática artística até concluir, em 2019, um mestrado em Artes e Estudos Críticos. Com o tempo, entendi que escrevo não só com palavras, mas também com som e imagens - numa fusão entre o movimento estético, o movimento social e o movimento do meu próprio corpo em transição. Em 2016, me reconheci como pessoa não binária; em 2021, iniciei a terapia hormonal com testosterona e fui passando a me apresentar como pessoa transmasculina.

Só depois de me constituir enquanto sujeito foi possível compreender o território mais amplo em que meu corpo se inscreve. Porque, quando falamos de pessoas trans, não falamos de um bloco homogêneo, mas de pluralidade. O Brasil, há 16 anos, lidera o ranking dos países que mais assassinam pessoas trans e travestis - violência que recai de forma desproporcional sobre travestis negras, frequentemente com requintes de extrema crueldade, expressando uma tentativa histórica de eliminar suas existências.

Entre pessoas transmasculinas, homens trans e pessoas não binárias designadas mulheres ao nascer, o padrão de violência é outro: menos visível, porém igualmente devastador. Não somos mortos nas mesmas proporções, mas somos sistemática e silenciosamente apagados - enfrentando índices alarmantes de casos de suicídio e sofrimento psíquico. Isso não acontece por fragilidade individual, mas por falta de reconhecimento institucional, familiar e social.

A constituição da identidade humana é sempre uma encruzilhada - um ponto de encontro de forças históricas, sociais e afetivas. Voltar ao Brasil foi também reencontrar as contradições de um país onde apenas existir enquanto corpo dissidente da norma se torna um gesto político. Mas foi aqui, novamente entre águas e ruínas, que reencontrei o fio que costura minha vida à minha pesquisa e à minha prática artística, tentando construir, nesse entrelaçamento, uma ética do movimento da vida.

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O crime

Em 2022, vivi uma experiência de violência que evidenciou, com dureza e clareza, o descompasso entre identidades plurais e estruturas institucionais ainda presas ao binário. Eu morava em São Paulo e mantinha um breve relacionamento com uma pessoa designada mulher ao nascer, que naquele momento se apresentava como não binária. O que se iniciou como convivência terminou, numa noite de outubro, em agressões físicas intensas.

Acionei a polícia diversas vezes, assim como os vizinhos e a portaria do prédio, sem sucesso. Quando a porta foi finalmente arrombada, fui encontrado coberto de sangue, com os lóbulos das duas orelhas mutilados, com os dedos profundamente rasgados à base de mordida, com o rosto e o pescoço marcados por tentativa de enforcamento e a casa destruída; a agressora, sem ferimentos, foi levada algemada para a Delegacia da Mulher, enquanto eu fui levado para o pronto socorro.

Diante das autoridades, ela não hesitou em se apresentar como uma "mulher cisgênera", omitindo até mesmo seu nome social. Ao fazer isso, ela explorava uma brecha conhecida: a ausência de protocolos claros sobre como tratar identidades transmasculinas e não binárias, tentando me enquadrar simplesmente na categoria de homem - o perfil da grande maioria dos agressores nesse país. Esse deslocamento estratégico encontrou terreno fértil num sistema que, naquele momento, simplesmente não sabia onde me situar.

Na Delegacia da Mulher, mesmo com muitas lesões evidentes, minha palavra não encontrou reconhecimento imediato e fui lido como um corpo que não cabia nas categorias disponíveis. Ali tornou-se nítido como misoginia, transfobia e desconhecimento institucional se articulam para produzir um tipo particular de violência e apagamento institucional, que contribui para a desumanização de mulheres e pessoas trans que transitam pela expressão da masculinidade.

Para pessoas transmasculinas e não binárias, esse tipo de violência opera em outra chave: menos visível, mas sustentada por estruturas que ainda não nos compreendem. Carregamos as marcas da socialização feminina e, ao mesmo tempo, habitamos expressões masculinas; essa combinação confunde instituições habituadas à tomada de decisões rápidas, que se baseiam fortemente na leitura corporal e na imagem. Somos deslocados conforme a conveniência do olhar externo - às vezes vistos como homens e responsabilizados por isso; outras vezes devolvidos à categoria de mulheres quando reivindicamos respeito, nome e identidade.

A violência, nesse contexto, não se resume ao episódio. Ela se manifesta também nas lacunas normativas: inexistência de protocolos, ausência de diretrizes, desconhecimento técnico. Foi por isso que, com apoio do Ministério Público, compreendi que registrar esse caso não dizia respeito apenas à minha experiência individual, mas ao mapeamento de uma falha estrutural que atinge tantas pessoas cujas identidades não se encaixam nas caixas disponíveis.

Obter a medida protetiva foi um passo necessário - não apenas de autopreservação, mas de afirmação de que pessoas transmasculinas também têm direito ao reconhecimento e à proteção institucional.

Hoje, mais de três anos depois, é apenas através da escrita que venho conseguindo reorganizar essa experiência, nomear o que ainda falta e produzir sentido onde a norma insiste em produzir ausência.

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As consequências do crime - o que fica

Voltei para Campos dos Goytacazes bastante machucado e com a sensação de que minha alma havia se desconectado do corpo. Perdi o apartamento, o trabalho, parte da confiança nas estruturas e nas pessoas.

Hoje, além da arte e da pesquisa, também integro o Coletivo Trans Goytacá e o Coletivo de Cultura e Arte Trans+ (COCART+), espaços de criação e de resistência. Minha prática se alimenta da espiritualidade e da escuta profunda ¿ de si, do outro e do mundo. É no encontro com pessoas e saberes partilhados que a minha ação se desenha, permitindo que a expressão tome a forma que precisar: palavra que se ergue, imagem que insiste, gesto que abre caminho.

Falo também em respeito aos transcestrais, aos transmasculinos, às mulheres andróginas, às mulheres lésbicas, desfeminilizadas ou não - aquelas que, por recusarem caber nos moldes disponíveis, foram marcadas pela completa abjeção, punidas por existirem fora do esperado e para além do desejo cismasculino, muitas vezes perseguidas até a loucura ou tragadas por ela. Falo ainda das pessoas não binárias que vieram antes de mim - as que puderam se afirmar e as que viveram condenadas ao silêncio e à lacuna narrativa. Todos e todas abriram passagem quando o mundo lhes negava existência, e é com reverência que me inscrevo nessa linhagem.

Escrever, para mim, é uma forma de deixar frestas no que tentam manter fechado - não em busca de reconhecimento individual, mas de reconhecimento mútuo. Nenhuma transição acontece sozinha: toda movimentação de um corpo reverbera, desloca, rearranja o mundo à sua volta. O que escrevo hoje se inscreve nessa linha de continuidade feita de fragmentos, coragem e memória - uma linhagem cuja resistência nasce precisamente do movimento que recusa a paralisia compulsória e insiste em seguir adiante, mesmo quando tudo ao redor tenta interromper o seu passo.