João Vitor Maciel Mathias Brivilati

João Vitor Maciel Mathias Brivilati
João Vitor nasceu em 7 de setembro de 2002, em São Gonçalo, e teve sua vida interrompida aos 17 anos. Filho dedicado e irmão protetor, era profundamente ligado à irmã mais nova, Safira, a quem chamava de sua "joia". Desde muito cedo, assumiu responsabilidades que não pertencem à infância. Ao perceber as dificuldades de saúde enfrentadas pela mãe, começou a trabalhar ainda criança, ajudando em um estacionamento, movido pelo desejo de proteger e amparar sua família.
Apaixonado por esportes radicais, João tinha no skate o seu maior sonho. Inspirado pelo pai, surfista e professor de surfe, alimentava o desejo de se tornar skatista profissional. Planejava completar 18 anos para tirar o passaporte, viajar para o exterior e tentar conquistar um patrocínio esportivo. Trabalhava como entregador para juntar dinheiro e viabilizar esse projeto de vida. Ao mesmo tempo, estudava por meio do supletivo, determinado a concluir os estudos sem abandonar suas responsabilidades.
Era descrito pela mãe como um filho excepcional: cuidadoso, afetuoso e preocupado em não causar sofrimento à família, especialmente em razão dos problemas cardíacos enfrentados por ela. Gostava das músicas da banda Charlie Brown Jr., especialmente da frase que carregava como símbolo da própria trajetória: "mas o que é bom dura o tempo bastante para se tornar inesquecível".
O Crime
Em 11 de março de 2020, durante uma operação policial em São Gonçalo, João Vitor foi atingido por um disparo na região da barriga. Segundo os relatos da família, ele apenas passava pelo local, indo entregar um lanche, quando foi alvejado. Socorrido em estado grave, lutou pela vida no hospital, chegou a sofrer uma parada cardíaca e perdeu grande quantidade de sangue, mas não resistiu aos ferimentos.
A mãe relata que, além da dor da perda, enfrentou o sofrimento de ver o filho ser inicialmente tratado como ¿envolvido¿ no registro policial, apesar de ser um adolescente trabalhador, estudante e sem envolvimento com a criminalidade.
O procedimento relacionado à sua morte acabou arquivado. O entendimento ministerial foi no sentido de que João Vitor teria sido atingido por policiais militares durante confronto armado na região, em situação classificada como ¿erro na execução¿. Para a família, entretanto, o arquivamento representou também a ausência de responsabilização pela morte de um jovem que tinha sonhos, projetos e uma vida inteira pela frente.
As consequências do crime - o que fica
A morte de João Vitor devastou toda a família. Sua mãe, Juliana, sofreu graves consequências físicas e emocionais após o ocorrido. Pouco tempo depois da morte do filho, teve um novo infarto e desenvolveu complicações cardíacas permanentes, tornando-se pessoa com deficiência. Antes atleta, perdeu parte da mobilidade do lado esquerdo do corpo e não conseguiu mais retornar ao trabalho.
O sofrimento emocional também marcou profundamente a família. A avó de João sofreu um infarto após receber a notícia da morte do neto e hoje necessita de muletas para se locomover. A irmã mais nova cresceu sem a presença daquele que era seu maior protetor.
Juliana passou a integrar movimentos de mães vítimas da violência estatal, transformando a dor em luta por memória, justiça e reconhecimento. Para ela, o luto não terminou. O filho que deveria estar iniciando a vida adulta, entrando na faculdade, viajando e realizando seus sonhos, tornou-se mais uma vítima fatal da violência armada no estado do Rio de Janeiro.
A ausência de João permanece diariamente na vida da família ¿ não apenas como lembrança da violência sofrida, mas como a interrupção brutal de futuros que jamais puderam acontecer.
