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Experiências de atuação da Pedagogia, da Psicologia e do Serviço Social
            na defesa dos direitos humanos de crianças e adolescentes


            adolescente, pessoa em desenvolvimento que deve ser protegida e priorizada na agenda pública,
            e não apenas alvo de tutela e controle pelas famílias, pela sociedade civil e pelo Estado.

                   Esta alteração demanda investimentos para a modificação, por meio de políticas públicas, de
            alguns indicadores que mostram que ainda existe uma hierarquia concreta das “infâncias” possíveis
            que se relaciona diretamente à localização de classe, de raça e de gênero.

                   A título de exemplo, cita-se aqui que os dados apresentados no 24º Censo do Módulo Criança
            e Adolescente - sistema que congrega informações sobre crianças e adolescentes acolhidos no Estado
            do Rio de Janeiro - mostram que 79,37% das crianças e adolescentes em situação de acolhimento
            são negras (os), e que, ao se considerar o universo de acolhidos que estão fora do espaço escolar,
            constata-se que 75,3% são negros, o que demonstra que os investimentos na ampliação da oferta de
            vagas de creche, pré-escola, bem como de ações para promover a permanência no espaço escolar são
            fundamentais para garantir a equidade e os direitos humanos deste grupo populacional.

                   Ao se considerar a questão de gênero, por exemplo, os dados apresentados no Anuário Brasileiro
            de Segurança Pública de 2019 indicam que a maioria das vítimas de estupro e de estupro de vulnerável
            são negras (50,9%), e que, ao se considerar a faixa etária, observa-se que 71,8% das pessoas vitimizadas
            são meninas até 17 (dezessete) anos de idade.

                   Os dados do Anuário também mostram que o ápice das situações de estupro de meninas se
            dá na faixa dos 10 (dez) aos 13 (treze) anos, cabendo destacar, inclusive, que tais dados se relacionam,
            inclusive, à prática dos casamentos infantis que ocorrem à revelia das previsões normativas (p. 118-120).

                   No que se refere ao atendimento socioeducativo, os dados apresentados no último
            Levantamento  Nacional  Socioeducativo  (2019)  mostram  que  os  quesitos  cor/raça,  gênero  e  renda
            familiar são elementos fundamentais para se traçar o perfil dos (as) adolescentes incluídos no sistema
            socioeducativo brasileiro.


                   No que se refere à renda, o levantamento mostra que a maioria esmagadora dos (as) adolescentes
            (81%) residem com famílias de 4 (quatro) ou 5 (cinco) pessoas, e que a renda para sustento de seus
            membros se mantém na faixa de 0 (zero) a 1-2 (um a dois) salários mínimos. Quanto ao quesito cor/raça,
            os dados revelam que 40% dos (as) socioeducandos (as) são pretos (as) e pardos (as), o que contrasta com
            as outras designações (23% brancos, 0,8% amarelos, 0,2% indígenas e 36% sem especificação de cor/raça).

                   Assim, ainda que se observe uma significativa subnotificação quanto a este último quesito, é
            possível constatar que a maioria dos adolescentes é negra e vive em situação de pobreza. Os dados
            indicaram também que 56% dos adolescentes em privação e restrição de liberdade eram pretos e
            pardos, o que reitera a relação entre as dimensões racial e classista no perfil socioeducativo.

                   No que se refere à questão de gênero, os dados mostram que na data de corte do levantamento
            havia um percentual de 95% de adolescentes do sexo masculino e 5% de adolescentes do sexo feminino
            no sistema socioeducativo. Não obstante, os dados relativos à identidade de gênero, embora tenham
            sido considerados no levantamento, eram inexistentes em várias unidades da federação, dentre as
            quais se inclui, notadamente, o Rio de Janeiro, que também não forneceu, de igual modo, informações
            sobre a orientação sexual dos adolescentes.


                   A realidade do sistema socioeducativo fluminense, que aponta para a existência de demandas
            concretas  relacionadas  à  diversidade  de  gênero,  à  diversidade  sexual,  à  questão  étnico-racial  e  à
            situação de pobreza dos (as) adolescentes e suas famílias, mostra que é preciso fazer investimentos de
            grande monta no que diz respeito à garantia de direitos humanos neste âmbito.



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